Apresentação

A escrita da História: A natureza da representação histórica


Apresentação

 

     No ano de 2009, organizamos uma série de seminários, nos quais historiadores e participantes do grupo de pesquisa em Epistemologias e Metodologias da História eram convidados a oferecer, cada um à sua maneira, uma resposta aos desafios da teoria da história e da historiografia contemporânea. O resultado desse trabalho foi publicado, em 2011, num livro nomeado Epistemologias da história: verdade, linguagem, realidade, interpretação e sentido na pós-modernidade. Percebemos que importantes temas da historiografia contemporânea foram ressaltados nesta obra coletiva, bem como as principais referências teóricas a eles pertinentes. E foram esses temas e referências que reconhecemos circulando no pensamento e nos textos do historiador holandês Frank R. Ankersmit.

     Propusemos a ele uma entrevista que deveria ser publicada, inicialmente, como apêndice ao livro supracitado. Posteriormente, o projeto editorial e de pesquisa ganhou uma nova dimensão, a tal ponto que criamos um grupo de trabalho para a tradução de uma seleção de textos de Frank Ankersmit. Ao longo dos últimos anos, dedicamo-nos a essa tarefa, sempre em contato com o historiador holandês, que generosamente colaborou o tempo todo, inclusive aprovando e até aplaudindo a escolha dos ensaios, como sendo alguns dos melhores escritos que havia produzido até então.

     Já durante o processo de leitura, discussão e tradução dos textos, fomos percebendo que se tratava de uma reunião de sete capítulos bastante significativos e representativos de toda obra desse autor, e que expressam as preocupações mais atuais da escrita da história – acompanhados, aliás, por um prefácio e uma entrevista inéditos, concedidos pelo autor, Frank Ankersmit, especialmente para esta edição. Entendemos que deverá servir não apenas para o leitor que deseja conhecer a obra desse autor, mas também perceber algumas de suas mudanças nas décadas de 1990, 2000 até o presente ano de 2012, em que se situa a produção e publicação destes textos.

     Os dois primeiros capítulos, por exemplo, têm em comum preocupações concernentes ao papel da linguagem na escrita da história. No primeiro, originalmente publicado no livro History and tropology: the rise the of the metaphor (1994), vê-se um Ankersmit ainda bastante imerso numa filosofia da história narrativista (perceptível, aliás, já desde sua primeira obra, Narrative de 1983), com afirmações tais como a de que as “narrativas são tudo o que temos” e de que a linguagem do historiador é composta não por um contato direto dele com o passado, mas por meio de “substâncias narrativas”, isto é, objetos linguísticos utilizados pelo próprio historiador para falar do passado. Já no segundo capítulo, publicado sete anos depois em seu Historical representation (2001), o leitor poderá observar um Ankersmit buscando um juste millieu entre os pressupostos da Virada Linguística e da Teoria Literária, e as posições que ele defenderá nos ensaios seguintes, em que o autor passava por uma fase intelectual de transição da linguagem para experiência histórica (posição expressa em seu Sublime historical de 2005); de um retorno ao historicismo de Ranke e de Humboldt (defendido em seu Meaning, truth and reference in historical de 2012); e, como o leitor verá no último capítulo, que é a entrevista, de uma saída declarada do pós-modernismo para uma “nova filosofia da história”, preocupada com questões tais como a reabilitação da experiência e da presença (do passado) na escrita da história.

     É este trabalho que agora apresentamos ao público brasileiro, ao leitor interessado nos principais temas da teoria e da historiografia contemporânea. Para quem conhecia, unicamente, a produção deste historiador holandês disponível no Brasil até a presente data, se surpreenderá com o Ankersmit desta coletânea. Contudo, o problema posto por ele, desde seus textos mais conhecidos, continua atual, a saber: a linguagem tomada como um problema e, mais ainda, um problema que o historiador deve enfrentar. Dito em outras palavras, o problema da narratividade está posto, em Ankersmit, do começo ao fim. Nesse sentido, podemos dizer que é bastante expressivo o percurso trilhado pelo historiador holandês, ele indica a incorporação intelectual de um racionalismo mais duro, tanto na dimensão da pesquisa quanto da representação. E a forma escolhida por ele para dar expressão ao seu pensamento, particularmente nesta coletânea, é indicativa dessa rigidez. Sabemos que pensar na linguagem como um problema nos sugere, também a pensar na questão de como, afinal, eu conto uma história. Ankersmit sabe disso, e desse pecado não pode ser acusado. Ele articula, com a intimidade de quem transita há décadas nesses territórios, os problemas da filosofia da linguagem com os da historiografia.

     Como uma espécie de guia, oferecemos ao leitor um mapa intelectual dos problemas propostos pelo historiador holandês ao longo deste livro.

 

Capítulo 1: o uso da linguagem na escrita da história

 

     A partir da questão: como o conhecimento historiográfico é possível? Que remonta a Kant em seu aporte filosófico à epistemologia, porém que a entende como uma pergunta equivocada, Ankersmit não tentará demonstrar a possibilidade do conhecimento histórico, reforçando o status científico da historiografia moderna, mas partirá do reconhecimento da inexorável subjetividade do historiador, e de que a história não é uma ciência, nem produz conhecimento no sentido próprio da palavra e, por fim, de que isso não é tão ruim quanto pode parecer à primeira vista. Isso será linguística que ordinariamente associamos com a expressão do conhecimento científico) e, segundo, da narrativa histórica (isto é, a forma linguística empregada pelos historiadores). Concluir-se-á, assim, que, se a história tem uma epistemologia própria, esta não teria um caráter de conhecimento, mas de uma “organização do conhecimento”, que, por sua vez, traduz-se em uma proposta de como o passado poderia ser visto.

 

Capítulo 2: virada Linguística, teoria literária e teoria da história

 

     No capítulo seguinte, “Virada Linguística, teoria literária e teoria da história”, Ankersmit permanece ocupando-se do tema transversal da escrita da história, levando agora em consideração a questão da relação entre a chamada Virada Linguística e a introdução à teoria literária como um instrumento para a compreensão da escrita da história. Postula, dessa forma, (1) que há uma assimetria entre as reivindicações da Virada Linguística e os da teoria literária; (2) que a confusão entre esses dois tipos de reivindicação tem sido mais infeliz sob a perspectiva da teoria histórica; e que (3) a teoria literária tem muito a ensinar sobre a escrita da história ao historiador, mas não tem qualquer tipo de influência sobre os tipos de problemas que são tradicionalmente investigados pelos teóricos da história. Ainda assim, chega à conclusão de que qualquer um que desejar escrever uma história sobre a escrita da história não deve deixar de fora a questão de sua relação com a teoria literária.

 

Capítulo 3: da linguagem para a experiência

 

     No capítulo intitulado “Da linguagem para a experiência”, Ankersmit toma como ponto de partida as leituras de Rorty, Gadamer e Derrida a respeito da possibilidade (ou não) da linguagem dar conta da experiência do mundo. Crítico do transcendentalismo linguístico, o autor opta pela experiência como única maneira de se projetar o passado sobre o presente. Para Ankersmit, os acontecimentos passados são textos que não possuem significados intrínsecos, tais significados são atribuídos a eles pela mente que lê. Por isso, diz Ankersmit, “[...] a história que o historiador conta sobre a transição de uma maneira de experenciar o mundo para outra mais tardia é uma história que toma lugar no próprio tempo de vida do historiador”. Afirmativamente, o autor finaliza seu texto acreditando que depois de jogarmos fora as teorias transcendentalistas de explicação do passado seremos “[...] presenteados com um novo tipo de escrita da história”.

 

Capítulo 4: experiência histórica: além da Virada Linguística

 

     Diferentemente da ingênua concepção do século XIX de uma historiografia que pretende provocar a ilusão de que estamos olhando para o próprio passado em vez de um texto, no século XX, particularmente a partir da publicação de Meta-história de Hayden White, entendemos que não olhamos por meio de textos, mas para eles. Essa descoberta abriu caminho para o reconhecimento de que o texto histórico gera significado histórico, ao mesmo tempo em que regulamenta as possibilidades criativas do historiador. A preocupação com a linguagem, principal marca do pensamento historiográfico contemporâneo, é, ao mesmo tempo, um convite a um olhar não linguístico da história. Buscando ir além, e não contra a Virada Linguística, Ankersmit explora o conceito de experiência histórica. Guerras, revoluções, descobertas científicas – em suma, grandes acontecimentos que conformam a experiência histórica coletiva – poderiam ser contrastados à experiência cotidiana e ao olhar individual sobre o passado, capaz de subitamente apreender a indelével marca de que as coisas já não são como outrora.

 

Capítulo 5: representação e referência

 

     Traçando um paralelo entre metáfora e representação, o pensador holandês sugere que a história possui o poder de caracterizar uma representação do passado como algo. Essa ideia o leva a afirmar que as criações dos historiadores (como, por exemplo, o Renascimento) nos convidam a ver períodos históricos como aquilo que associamos a esses conceitos. Ou seja, a história representa o passado, criando sentidos que necessariamente exigirão do leitor tomar certa atitude com relação a certos acontecimentos, sujeitos, ou conceitos. Conceber o texto histórico como representação é, para Ankersmit, crucial para uma compreensão adequada da representação histórica, e requer a aceitação de que o passado funciona como uma tela em branco, em que o historiador projeta significados.

 

Capítulo 6: verdade na história e na literatura

 

     Esse ensaio lida com o papel da narrativa em ambas, ficção e escrita da história. Admite-se que o tópico não é nada original, pois vem sendo trabalhado por muitos desde Roland Barthes até Hayden White. Ambos endereçam o interesse na dimensão literária da escrita da história. Todavia, aqui se propõe também o caminho inverso: investigar a contribuição da escrita da história para um melhor entendimento do romance, ou pelo menos de algumas variantes dele.

 

Capítulo 7: sobre história e tempo

 

     Neste capítulo, Ankersmit se dedica a um debate de suma importância para o trabalho historiográfico, como o título deixa evidente. Diferentemente de grande parte dos historiadores, que considera a questão do tempo de crucial importância para o seu trabalho, Ankersmit pensa que a temporalidade é sempre um ponto de partida importante, mas as suas marcas devem desaparecer para que o trabalho do narrador seja considerado bem-sucedido. O tempo teria, assim, um papel paradoxal, pois de um lado ele é imprescindível como ponto de partida da historiografia, por outro, as suas marcas devem desaparecer do texto para que os demais historiadores reconheçam a competência narrativa de um profissional desse campo. Que historiador profissional estaria disposto a reconhecer como historiografia bem feita um trabalho que se limitasse a apresentar uma sequência cronológica de fatos?

 

Capítulo 8: entrevista com F. R. Ankersmit

 

     A entrevista que realizamos com Ankersmit enriquece por demais a visão que podemos ter de sua perspectiva teórica. Por meio dela, podemos obter esclarecimentos de pontos complexos de seu trabalho, além de sermos introduzidos nos temas mais recorrentes de seus escritos. Poderíamos arriscar a dizer que, à medida que o confrontamos com nossas perguntas e curiosidades, vemos desvelar-se à nossa frente uma faceta surpreendente de nosso personagem. Esperamos que o leitor também seja pego de surpresa com suas respostas!

     Gabriel Giannattasio

     Jonathan Menezes

     Alfredo Oliva

     Maria Siqueira Santos

     Gisele Lecker de Almeida