ENTREVISTA COM F. R. ARKENSMIT

A escrita da História: A natureza da representação histórica


ENTREVISTA COM F. R. ARKENSMIT

 

     1. é possível perceber e reunir uma importante discussão, no campo da teoria da história, sobre a relação entre história e pós-modernidade. Entretanto, quando se trata de narrar “o passado”, não estamos recorrendo, ainda, às estruturas narrativas modernas? Quais são os trabalhos exemplares da emergência de outras formas de estruturas narrativas historiográficas produzidas de dentro do campo histórico, ou seja, por historiadores?

 

     Para mim, o pós-modernismo foi, em grande medida, uma reação ao que Richard Rorty havia chamado de modo “fundacionista” que prevaleceu nos anos 1960 e 1970. Foi um tempo em que a ciência reinou de forma suprema e era o modelo para a maioria, senão para todas as nossas relações com o mundo. Penso no positivismo, no positivismo lógico, no estruturalismo (até mesmo no pós-estruturalismo) e grande parte da filosofia da linguagem. Claro, como todos sabemos, houve no passado uma reação similar aos padrões de pensamento cientificistas, de forma mais específica a reação romântica ao Iluminismo, para o qual a ciência não foi menos a medida de todas as coisas, como aconteceu nas décadas após a Segunda Guerra Mundial.

     É um chavão que o Romantismo nos deu, entre muitas outras coisas, a concepção moderna de história, como a de estar associada ao historicismo de Ranke, Humboldt, Waitz, Droysen e alguns outros. É verdade que o historicismo desde cedo viu a escrita da história como uma ciência não menor do que as próprias ciências, embora com a ressalva de que era uma ciência de um tipo especial. Filósofos neokantianos do fim do século XIX e início do século XX focaram essa reserva e tentaram definir as diferenças entre as ciências e a escrita da história. Penso na oposição entre e (Droysen, Dilthey), distinção entre ciências “normográficas” e “idiográficas” (Windelband) ou a discussão de Rickert acerca do papel dos valores na escrita da história.

     A partir dessa perspectiva, há uma analogia entre ambos, historicismo e pós-modernismo: ambos questiononaram o ponto de vista de que há apenas um método para obter acesso aos segredos do mundo e que esse método tem a sua forma ideal nas ciências. Tenho crido, portanto, que existe uma afinidade profunda entre historicismo e pós-modernismo: ambos tinham o mesmo inimigo e lutaram muito com as mesmas armas. No último capítulo do meu livro History and de 1994, investiguei essa afinidade e tentei enumerar se há uma série de semelhanças entre historicismo e pós-modernismo.

     Devo acrescentar a isso, no entanto, que, para mim, essas semelhanças foram um argumento mais a favor do historicismo do que do pós-modernismo. Quero dizer que o pós-modernismo poderia ter sido elaborado para olhar melhor por meio da demonstração do que tinha em comum com o historicismo, e não o contrário. A explicação é que, para mim, o historicismo tal como se desenvolveu nos séculos XIX e início do XX era uma teoria muito mais profunda do que o pós-modernismo. Não em último lugar, porque o pós-modernismo atraiu uma série de reflexões desleixadas e irresponsáveis e é por isso que eu não gostaria mais de me caracterizar como um pós-modernista.

     Para colocar tudo em uma frase, o que era bom no pós-modernismo, a meu ver, foi em que parecia estar de acordo com o historicismo e não no qual suas afirmações eram, na minha opinião, mais questionáveis.

     Isso me leva, mais ou menos automaticamente, à sua pergunta sobre a narrativa. Teóricos pós-modernistas estiveram muitas vezes interessados na narrativa e viram nela uma arma útil para lutar contra o cientificismo. A intuição está correta, eu acredito. No entanto, quando os pós-modernistas falavam sobre a narrativa sempre tinham o romance em mente. E, certamente, ninguém terá dúvidas de que os romances costumam ter um caráter narrativo. No entanto, os romances não são verdades sobre a realidade, como se pode dizer de textos históricos. Romances são ficções, enquanto o historiador tem como objetivo nos contar a verdade sobre o passado. E, então, você tem que, de algum modo, estabelecer pontes entre linguagem/realidade. Este é um problema que normalmente está ausente dos romances: eles são ficção, acima de qualquer coisa. Segue-se que uma discussão acerca da narrativa não lançará nenhuma luz sobre o problema da verdade histórica, considerando que a narrativa está principalmente associada ao romance.

     É por isso que passei, há algum tempo, da noção de narrativa para a de representação. Em primeiro lugar, porque essa noção não está contaminada com tudo o que os narrativistas associam com a narrativa; e, em segundo lugar, porque a noção sugere fortemente o que é representado: se você tem representações, também deve haver algo que é representado por elas. Desse modo, você pode corrigir o distanciamento entre linguagem/realidade, tão característico da teoria narrativista.

     Finalmente, você pergunta se é possível pensar em estudos históricos que não têm o caráter narrativista ou “representacionista”, como eu colocaria nos dias de hoje. Nesse ponto eu gostaria de voltar à velha distinção entre (i.e. pesquisa histórica) e (ou seja, a escrita da história). No primeiro nível, você tem que obter informações sobre os fatos do passado, e no segundo vai integrá-los a uma imagem convincente de alguma parte do passado. Apenas o último pode ser narrativista ou “representacionista”. Agora, obter informações sobre os fatos do passado está longe de ser fácil e pode envolver muito trabalho, inferência e, às vezes, até mesmo especulação. Não será surpresa, portanto, que um monte de historiadores esteja completamente ocupado com essa dimensão da prática histórica. Esse tipo de trabalho é indispensável e altamente respeitável: é uma condição para todo o resto. No entanto, os resultados da pesquisa histórica não serão apresentados na forma de uma narrativa ou representação.

 

     2. Carlo Ginzburg apresenta seu “paradigma indiciário” como uma metodologia crítica às teorias historiográficas pós-modernas, ainda que, em muitos momentos, de forma não declarada. Ao falar dos procedimentos adotados pelo detetive (Holmes), pelos caçadores e coletores e pelo crítico de arte (Morelli), o historiador italiano insinua que uma relação objetiva entre o signo e o mundo, entre a palavra e a coisa. É porque esta relação, pensa ele, que o caçador chega à sua caça. O senhor poderia comentar este postulado?

 

     Eu acho que o paradigma esboçado por Ginzburg em seu famoso ensaio “Sinais” está correto, de acordo com o que eu tinha chamado de pesquisa histórica, quando respondi à sua primeira pergunta, mas há um tipo diferente de lógica quando você passa para o nível da escrita da história. No momento em que Ginzburg escreveu seu ensaio “Sinais”, ele atingiu sua micro-história – penso no seu livro sobre Menocchio. E, sem dúvida, é verdade que essas “micro-histórias” têm mais afinidade com o domínio da pesquisa histórica do que com a escrita da história, assim como a síntese de muitos fenômenos históricos em uma imagem global está em jogo.

 

     3. Em sua opinião, por que alguns teóricos que foram tão relativistas no passado, como Carlo Ginzburg, se colocam como opositores severos da renovação teórica dos historiadores pós-modernos? O senhor acredita na convicção epistemológica deles ou se trata de uma questão de caráter político?

 

     Como eu disse na minha resposta à pergunta 1, o pós-modernismo inicialmente parecia ser uma boa ideia. Nós realmente precisavámos de uma correção do imperialismo do cientificismo, da rigidez e do dogmatismo do Modernismo. A irreverência do pós-modernismo veio como um alívio para muitos no mundo da arte, cultura, arquitetura e filosofia (como veio a mim). Mas o pós-modernismo exagerou nessa irreverência, desembocando em irresponsabilidade, imprudência e banalização. Assim, pode-se muito bem entender que muitas pessoas, Ginzburg entre elas, voltaram-se contra o pós-modernismo.

 

     4. Keith Jenkins, num texto intitulado “O fim da história”, o acusa de nostálgico. Ele faz referência à sua metáfora acerca de um diagnóstico da história contemporânea, na qual o senhor afirma que vivemos o outono da história, isto é, que “as folhas se desprenderam da árvore”. O autor inglês uma nostalgia do ‘tronco’ ou, ao menos, a manutenção do ‘tronco’ como referente. A sua pós-modernidade é nostálgica?

 

     Infelizmente, eu não estou familiarizado com o texto de Jenkins que você menciona, então eu não sei ao certo o que exatamente ele pode ter tido em mente. De qualquer forma, está claro que ele menciona um ensaio meu publicado nos anos 1980 na revista History and Não penso que me expressasse de forma “nostálgica” naquele ensaio; “preocupado” seria um termo mais apropriado. Eu acho. Na verdade, meu argumento era o mesmo de Nietzsche em seu Nutzen und Nachteil der Historie für das no qual ele argumentou que a explosão da escrita da história no século XIX teve o efeito paradoxal de erguer uma barreira entre o presente e o passado, ao invés de ser uma ponte entre os dois. A ideia era de que a escrita da história, o debate histórico e tudo o que se pode associar a ele tornou-se tão intenso que começou a atrair toda a atenção para si mesmo, em detrimento do próprio passado.

     Expliquei um pouco o argumento de Nietzsche ao insistir no contextualismo de toda a escrita da história. A escrita da história exige que o historiador coloque os fenômenos históricos no contexto correto ou adequado – um contexto que nos permite entendê-los, vendo como eles se articulam com outros fenômenos. Então, o que você ganha se a escrita da história adquire uma autonomia nietzscheana em relação ao próprio passado é que a formação contextual dos acontecimentos históricos dos fenômenos tende a ser trocada por formações contextuais da escrita da história e do debate histórico. Isso é o que eu tenho em mente com a metáfora das folhas do passado estarem se desprendendo do tronco, dos ramos e dos galhos da árvore da própria história. Claro, eu estou bem ciente de que esta justaposição do passado em si e a escrita da história pode ser questionada com bons argumentos – no entanto, penso que a metáfora das folhas do passado sendo levadas pelos ventos do outono da escrita contemporânea da história capta algo que todos nós reconhecemos e sabemos ser uma ocasião para nos preocuparmos com a relação com o passado.

     Você poderia dizer que tudo o que ficou conhecido como desconstrutivismo, pós-estruturalismo, Virada Linguística e assim por diante simboliza o que eu tenho em mente aqui. O que todas essas teorias têm em comum é a convicção da impossibilidade de um acesso direto ao passado; o passado ficou escondido atrás da barreira impenetrável da linguagem. Essa é, aliás, uma das razões para o meu interesse na noção de experiência histórica. Para a experiência histórica, ou a sensibilidade histórica (como o diz o historiador holandês Huizinga), colocar isso restaura o contato imediato e direto com o passado.

 

     5. Mantendo-nos na imagem da sua metáfora, para que havemos de continuar reunindo as folhas dispersas pelo chão?

 

     Nenhuma sociedade pode funcionar sem uma percepção do passado e, como eu gostaria de acrescentar aqui, sem uma percepção dessa percepção do passado. Então vamos continuar a recolher as folhas do chão, pois é isso que a percepção histórica obriga-nos a fazer. Mas nós também precisamos da percepção de nossa percepção do passado, para que possamos saber o que exatamente estamos fazendo quando encontramos essas folhas do passado no solo.

 

     6. Ainda no seu texto traduzido e publicado no Brasil pela Revista o senhor caracteriza esta recente superprodução de conhecimento histórico como um “câncer”: “A questão crucial é que atitude tomar quanto a essa superprodução de literatura histórica que está se espalhando qual um câncer por todas as suas áreas.” Mais adiante, o seu texto afirma: “Porém, o que realmente ajuda e tem sentido é definirmos um novo e diferente elo com o passado [...]”. O passado ainda mantém-se como o grande referente do historiador? Sendo o câncer incurável, qual o seu prognóstico para o conhecimento histórico?

 

     Devo começar dizendo que lamento essa metáfora do “câncer da superprodução”. Não só porque, infelizmente, expressa falta de cortesia para com os historiadores e sua disciplina, mas, acima de tudo, porque um filósofo da história nunca deveria dizer tais coisas. Quero dizer que, em minha opinião, os filósofos da história devem sempre tomar a escrita da história como ela é e evitar criticá-la ou aplaudi-la. Sua única tarefa é a de entender a escrita da história e ele deve evitar tentar conduzir a escrita da hitória em uma direção ou outra. Meu ex-professor em Groningen, Ernst Kossmann, sempre costumava dizer que a história é como um elefante e que todos os esforços para movê-lo, por apenas uma polegada, fadados ao fracasso.

     Por razões semelhantes, eu não me atreveria a me pronunciar sobre o futuro da escrita da história.

 

     7. Como o senhor avalia a contribuição dos filósofos Friedrich Nietzsche e Michel Foucault para renovação teórica do campo historiográfico da atualidade?

 

     Tenho o maior respeito pelos dois. E eu acredito que o método genealógico adotado por ambos rendeu em suas mãos uma série de verdades mais profundas e mais fascinantes que temos sobre a história humana. Por outro lado, eu seria um pouco cético ao considerar se eles conseguiram uma revolução na escrita contemporânea da história. Não porque eu desejasse questionar qualquer de seus insights teóricos, mas sim por causa da concepção de história como sendo um elefante que ninguém pode puxar para uma direção ou outra. Eu não conheceria nenhum historiador contemporâneo, ou obra histórica, que fosse abertamente nietzscheano. Certamente, isso é diferente com Foucault. Por exemplo, seu Surveiller et tem inspirado muitos historiadores que escrevem sobre a disciplinarização da mente ocidental desde o Iluminismo. Todos os demais insights relevantes de Foucault chegam perto aos de Freud ou Elias.

 

     8. Que proximidades e distanciamentos existem entre a teoria da história de Hayden White e a sua?

 

     Eu compartilho com White seu interesse pelo texto, pelo que eu chamo de escrita da história. Eu difiro de White raramente, apenas quando aborda a questão da relação entre o texto histórico e a sua relação com a representação do passado. Estou pronto para reconhecer que tem sido uma grande conquista de White a de fazer os teóricos da história, e (alguns) historiadores, estarem conscientes da dimensão do texto e reconhecer que nós não olhamos “através” do texto histórico em direção a um passado que esteja supostamente por trás dele. Essa foi a revolução que White efetuou na filosofia contemporânea da história – e devemos ser eternamente gratos a ele por isso.

     No entanto, isso não nos permite perder de vista o problema da verdade histórica, aquilo que faz um texto histórico sobre alguns temas ser melhor (ou pior) do que alguns outros, de como conceber o progresso na escrita da história e assim por diante. Essas são questões de grande urgência para a prática da história, e o filósofo da história não pode se dar ao luxo de ignorá-las. Então, esse é o tipo de questão que eu tenho abordado em meus escritos. Em seguida, há uma diferença no “método”: White normalmente se baseia na teoria literária, enquanto eu sou essencialmente um filósofo da linguagem ao fazer filosofia da história. E eu gostaria de insistir sobre a legitimidade de ambas as abordagens. Então, se a minha abordagem à filosofia da história, às vezes, é diferente da de White, isso certamente não deve ser interpretado como uma crítica a ele.

 

     9. Alan Munslow, no seu livro Deconstructing cria duas categorias para classificar historiadores: construcionista e reconstrucionista para designar o posicionamento epistemológico de historiadores modernos; e desconstrutivistas para os historiadores pós-modernos. Como o senhor avalia essa classificação?

 

     A distinção de Munslow entre construtivismo e reconstrutivismo certamente faz sentido. De acordo com construtivistas como Droysen, Oakeshott, Meiland, Goldstein e Tucker, o que todo o historiador pode fazer é estudar a evidência de que o passado nos deixou e inferir, a partir disso, o que o passado pode ter sido com toda a probabilidade. Mas, como eles vão dizer, você nunca pode comparar essas construções acerca do que o passado pode ter sido com o passado em si, pela simples razão, mas decisiva, de que o passado não existe mais. Assim, o que todos os historiadores podem fazer é comparar essas construções históricas com outras, e pode-se, então, estabelecer qual delas melhor se adapta às evidências que o passado nos deixou.

     Reconstrucionistas, por outro lado, têm uma visão mais otimista da escrita da história e acreditam que uma comparação entre o texto histórico e o passado é realmente possível de alguma forma, afinal. Assim, eles acreditam na possibilidade de uma “reconstrução” do que o passado realmente teria sido.

     Desconstrutivismo é uma questão totalmente diferente. Principalmente, pode estar associado com Derrida e com a ideia de que o texto literário está sempre dividido contra si mesmo, no sentido de que o que ele diz em um nível, pode ser diferente do que ele diz em outro. Isso certamente é verdade para as grandes obras literárias do passado e do presente, razão pela qual estas podem, e serão, interpretadas de maneira diferente através dos tempos. Pode ser que alguns textos históricos, como os de Gibbon, Tocqueville ou Michelet compartilhem essa propriedade com a alta literatura. Mas certamente não é uma característica comum de todos os textos históricos, e agora ainda menos do que um século e meio atrás, se não me engano. Portanto, creio que desconstrutivismo é de um valor apenas limitado para a filosofia da história.

 

     10. A condição pós-moderna “fim das metanarrativas”, “sociedade disciplinar”, “cultura de massa”, “crise de representação”, “capitalismo tardio” seria o fim da historiografia modernista “verdade”, “progresso”, “sujeito”, “nação”, “razão”, “ciência” ou são coisas distintas?

 

     Eu acho que se deve estabelecer diferenças aqui: o fim da metanarrativa e a crise da representação lidam com a escrita histórica, enquanto que sociedade disciplinar, cultura de massa e capitalismo tardio são caracterizações de certos aspectos do nosso mundo contemporâneo.

     Para começar, o tão discutido fim da metanarrativa é, a meu ver, um não problema. As metanarrativas já foram criticadas, de forma muito mais eficaz do que já fez Lyotard, por Karl Popper em seu The Poverty of do início dos anos 1950. E alguém até poderia voltar a essa crítica, assim como à rejeição de Ranke à filosofia hegeliana especulativa da história dos anos 1830. Então, eu não acho que haja qualquer coisa nova ou algum interesse particular na crítica de Lyotard à metanarrativa.

     A crise da representação é mais interessante. A noção é normalmente associada à rejeição de Rorty ao que denomina de “fundacionismo” em seu influente Philosophy and the Mirror of de 1978, obra na qual ele inspira-se principalmente na filosofia da linguagem de Donald Davidson. Mas está longe de ser fácil ver quais consequências poderiam, ou deveriam, ter a filosofia da linguagem de Rorty e Davidson para a história ou filosofia. Poucos filósofos abordaram essa questão (embora eu tenha tentado fazer algo no meu Meaning, Reference and Truth in Historical a ser publicado pela Cornell UP, na Primavera de 2012).

     Então, vamos aos conceitos de sociedade disciplinar, cultura de massa e capitalismo tardio. Aqui nós estamos diante de várias tentativas de capturar o que é peculiar ao nosso mundo contemporâneo. Como tais, esses conceitos não mantêm, a meu ver, nenhuma relação específica com o Modernismo ou pós-modernismo. Quero dizer, se pode muito bem pensar em uma análise pós-modernista da cultura de massa contemporânea, a partir de um modernista. No primeiro caso, termos como verdade, progresso, e assim por diante, vão ser olhados com desconfiança, situação em que o historiador modernista não apresentaria objeções.

 

     11. A elaboração e o estudo da produção ficcional contemporâneas renderam conceitos importantes, como o “romance de não ficção”, de Truman Capote, ou a “metaficção historiográfica”, de Linda Hutcheon. Essas formulações seriam apenas jogos interpretativos e intertextuais ou uma nova condição narrativa?

 

     Eu duvidaria disso. Desde os dias de Sir Walter Scott temos tanto escrita da história como romance histórico. Suponho que será possível localizar o “romance não ficcional” e a “metaficção historiográfica” em algum lugar de uma linha que ligue os dois – mesmo que se tivesse que extrapolar essa linha em uma direção ou outra.

 

     12. Apesar das reservas da história modernista sobre a ficção, parte significativa da literatura contemporânea apoia-se na experiência e no testemunho de acontecimentos limites, como o Holocausto, as guerras coloniais, a violência urbana, os autoritarismos... Pode-se dizer que atualmente é o ficcional que revela a realidade dos fatos?

 

     Isso nos leva à questão abordada na influente coleção de ensaio de 1991, intitulado the limits of Como o título já sugere, há pessoas que acreditam que o Holocausto foi tão terrível que desafia cada tentativa de representá-lo. Outros vão concordar que o Holocausto foi terrível, mas pensam que não se pode inferir a partir disso que ele deva ser não representável. Outros ainda preferem se situar numa posição localizada em algum lugar entre esses dois extremos e dirão que isso significa que formas específicas de representação serão necessárias para representar o Holocausto, por exemplo, o método deiktic de Claude Lanzmann, onde o Holocausto é apenas “apontado” sem realmente indicar o que vamos encontrar quando olharmos diretamente a questão ou o recurso de Hayden White à voz média da gramática grega que sugere haver uma fusão entre o sujeito e o objeto.

     Da mesma forma, como foi demonstrado por alguns (como Berel Lang) que só se pode fazer justiça de uma maneira (moralmente) responsável para os horrores do Holocausto, adotando os métodos dos historiadores, uma vez que a ficção vai nos convidar ou obrigar a calcular as coisas acerca do Holocausto que não fazem realmente parte dele. Outros argumentam que só o meio literário à disposição do romancista pode nos dar uma ideia das atrocidades cometidas pelos nazistas e dos sofrimentos dos judeus nos campos de concentração.

     Quanto a mim, não sinto nenhuma vontade de escolher; na minha opinião, tanto um relato histórico acerca do Holocausto quanto um romance histórico, bem documentado, pode ajudar-nos a chegar a uma melhor compreensão deste crime sem precedentes contra a humanidade.

 

     13. Nesse sentido, a realidade do jornalismo, da literatura de testemunho, da biografia, do documentário, é diversa ou idêntica à verdade da história? Isto é, que tipo de história iguala realidade com verdade?

 

     Meu palpite é que os gêneros que você menciona, como o jornalismo, literatura de testemunho, (auto)biografias e documentários serão frequentemente utilizados como prova de textos históricos alegando nos dizer a verdade sobre o passado e serão frequentemente utilizados como demonstração de textos históricos, reivindicando nos dizer a verdade sobre o passado. Tome a literatura de testemunho. Muita pesquisa tem sido feita nas últimas décadas sobre a confiabilidade da literatura de testemunho e a conclusão foi a de que não há tal coisa como a memória pura, no sentido de ser um tipo de foto tirada no momento em que algo aconteceu e que, em seguida, tomamos para nós como algo a permanecer inalterado durante o resto de nossas vidas. Estamos continuamente processando nossas memórias e disso resulta que elas são redefinidas permanentemente no curso do tempo.

     Isso não significa que nunca poderíamos confiar no que uma testemunha sincera nos diz sobre algum acontecimento. Isso seria ridículo, tornar-se-ia impossível tomar decisões nos processos judiciais, para mencionar apenas um fato. Mas isso significa que se deva sempre ter muito cuidado com relatos de testemunhas e que terão sempre que ser confrontados com outras provas. Dessa forma, a literatura de testemunho se aproxima da explicação construtivista da escrita histórica que foi mencionada anteriormente. Assim é com as autobiografias; pense nas de Rousseau. Não se pode duvidar que ele, muito sinceramente, tentou dizer a verdade sobre si mesmo; apenas porque há uma grande quantidade de informações muito dolorosas sobre suas peculiaridades pessoais em sua autobiografia. No entanto, o preconceito muitas vezes é demasiado óbvio.

     Jornalismo é um caso interessante e à parte, pois aqui a transição é feita para o que primeiro aconteceu, depois se dirige ao relato (histórico). Certamente, seria interessante pagar para ver como os relatos jornalísticos influenciam a forma como os eventos são interpretados mais tarde na escrita da história. Meu palpite pessoal é que a influência é pequena, afinal de contas, mas isso é apenas uma conjectura que não está baseada em qualquer fato.

     14. Paul Ricoeur, num artigo para os Annales (“A escritura da história e a representação do passado”, julho-agosto, 2000), diz que o leitor de uma obra de história realiza um “pacto de leitura”: diante dela, sua expectativa é se deparar com um “relato verdadeiro”, não com uma ficção. Ou seja, ele pode contrariar o texto, discordar da interpretação do autor, ratificar acontecimentos, esclarecer passagens obscuras. Em que medida esse “pacto” valeria para uma “história pós-moderna”, caracterizada pelos críticos como um mero discurso relativista, descompromissado com a verdade?

     Meu palpite é que o “pacto de leitura” de Ricoeur dificilmente poderá ser conciliado com a tendência pós-modernista de acabar com a verdade histórica, contudo, essa noção é compreendida. Quer dizer, o pacto com o leitor que Ricoeur tem em mente permite que aquele acredite que o historiador, sinceramente, tenta lhe dizer a verdade sobre o passado. Então, se você desistir, com o pós-modernista, da crença em sua verdade histórica, o pacto de Ricoeur pode não fazer sentido. Seria como se você estivesse prometendo a vida a alguém que já está morto.

     15. Os historiadores devem ser reflexivos? Por quê?

     Há muitos grandes historiadores que nunca mostraram qualquer interesse em teoria da história. Portanto, seria errado dizer que algum conhecimento de filosofia da história ou teoria da história é condição para ser um bom historiador.

     No entanto, não se pode deixar de nos atingir o fato de que a maioria dos grandes historiadores do passado e do presente gostava de se pronunciar, em alguma fase da sua carreira, sobre as questões teóricas. Pense em Ranke, Droysen, Burckhardt, Lamprecht, Meinecke, Huizinga, Bloch, Marrou, Veyne, Foucault, MacNeill e tantos outros. Além disso, há, por vezes, uma dimensão teórica muitas vezes imperceptível no debate histórico. O melhor exemplo é a noção de causalidade. Historiadores têm se expressado muitas vezes com palavras de sentidos opostos uns com os outros porque não estavam suficientemente conscientes do que poderiam ser as causas. Pense na distinção entre as causas necessárias e suficientes ou no relato anormalista da causalidade histórica.

     Mas, talvez, o melhor argumento a favor da teoria da história é como estudantes de história tendem a reagir a ela. Na minha própria experiência, estudantes de história normalmente começam seus cursos de teoria da história com uma grande antipatia. Mas, posteriormente, muitas vezes me dizem que aprenderam mais de teoria do que qualquer outra disciplina do currículo. E ouvi histórias parecidas de meus colegas.


²⁶¹ Expressão em alemão que significa “Explicar” [Nota do tradutor].

 

²⁶² Expressão em alemão que significa “Compreender” [Nota do tradutor].

 

²⁶³ Expressão em alemão cuja tradução está colocada, a seguir, entre parêntesis pelo autor [Nota do tradutor].

 

²⁶⁴ Expressão em alemão cuja tradução está colocada, a seguir, entre parêntesis pelo autor [Nota do tradutor].

 

²⁶⁵ Título em alemão do ensaio “Usos e abusos da história para a vida” do filósofo mencionado [Nota do tradutor].

 

²⁶⁶ Título em francês do livro Vigiar e punir do filósofo mencionado [Nota do tradutor].