SOBRE O TEMPO E A HISTÓRIA

A escrita da História: A natureza da representação histórica


SOBRE O TEMPO E A HISTÓRIA

 

Introdução

 

     O objeto de estudo da história origina-se na distância temporal entre passado e presente: é nesta distância temporal entre passado e presente, ou entre diferentes momentos do próprio passado, que a escrita da história começa e é o que distingue a escrita da história de todas as outras disciplinas. Uma vez feita essa observação óbvia, será necessário retornar à teoria da história com a expectativa de que ampla atenção deverá ser dada ao tema da história e tempo. Nada está mais distante da verdade, todavia. De maneira curiosa, filósofos da história raramente escrevem sobre o problema do tempo. Aparentemente, o tempo não é considerado um tema de significado central para a teoria da história.

     Isso indica qual será a trama do meu argumento. Vou tentar dar uma explicação do porquê, contrariando nossas expectativas, filósofos da história têm mostrado sempre tão pouco interesse em torno do tópico da história e tempo. Por fim, vou interpretar o tempo a partir de três diferentes caminhos: 1) tempo como uma categoria transcendental; 2) tempo como tempo cronológico (para fazer referência ao ‘tempo do relógio’); e 3) tempo como encarnação da historicidade humana (tempo vivido). Como ficará claro, em nenhuma dessas três formas o tempo é muito significativo para a escrita da história. Permita-me formular isso um pouco mais enfaticamente. Espero estar apto a mostrar que a função do tempo no estudo da história é a de fazer a si mesmo invisível. O tempo certamente tem um papel a representar na escrita da história, mas seu papel é negativo ao invés de positivo – e isso pode explicar por que pouca atenção tem sido dada ao tempo.

 

Tempo como um conceito transcendental

 

     Eu disse anteriormente que o tempo pode ser considerado como constitutivo do estudo da história e do seu objeto de investigação. A única maneira de dar forma a essa intuição é a sugestão de olhar para o tempo como uma condição transcendental do sentido kantiano de possibilidade de conhecimento histórico.

     Agora, de acordo com Kant, tanto o espaço como o tempo são conceitos ‘puros’ e como tais não têm qualquer conteúdo empírico em si mesmo; um conhecimento empírico da realidade que seja confiável é possível apenas se dermos formas à realidade de acordo com estas do espaço e do tempo. Conhecimento é sempre conhecimento da realidade espaço-temporal. Kant coloca isso de uma forma, para ele, raramente clara no

 

agora espaço e tempo são aquelas intuições, as quais

fundamentam toda a matemática pura e todas as suas formas de

conhecimentos, e os juízos, os quais ao mesmo tempo valem como apodíticose necessários; [...] Com efeito, esta faculdade refere-se, a priori de forma intuitiva, não à matéria da manifestação, isto é, aquela que se encontra na sua sensibilidade, pois esta constitui o empírico, mas sim somente a forma dela, espaço e

 

     Dando continuidade a esse argumento trancendentalista, podemos agora seguir adiante para dizer que, do ponto de vista kantiano de toda história, todo conhecimento do passado somente é possível graças à Ansch­auungsformen do tempo. Seguiria que o tempo não é um conceito acidental na escrita da história: tempo verdadeiramente é a condição de possibilidade de todo conhecimento histórico. Obviamente, seria difícil pensar em uma ligação mais forte e íntima entre tempo e escrita da história.

     No entanto, há dois argumentos contra esse argumento transcendentalista. Antes de tudo, Kant por si só não acreditava ter fornecido um argumento transcendentalista de possibilidade do conhecimento histórico com uma estética transcendental. Ele estava interessado principalmente na matemática e nas ciências naturais e, como é tipicamente representativo do Iluminismo, ele também não tinha interesse ou respeito pela escrita da história. Seu argumento não está relacionado em nenhum lugar específico para o estudo da história, mas supostamente daria uma fundamentação epistemológica de algumas disciplinas como a astronomia, a geologia e – o que Kant fundamentalmente tinha em mente – a mecânica. O tempo tem um papel fundamental na mecânica, especialmente, e isso ocorre em função de um grande número de fórmulas. Isso já nos deveria colocar em alerta. Porque, como observou Spengler com perspicácia, a concepção de tempo de Kant diz respeito a “um tempo, em que expressões matemáticas como t, t2, v-t podem ser utilizadas, as quais não expressam, no mínimo, a aceitação de um tempo da grandeza de zero ou de tempos negativos. Sem dúvida, não se questiona aqui o setor/região da vida, do destino, do que é vivo, do tempo Obviamente, nem todo tempo é tempo

     Minha segunda objeção tem a ver com a história como uma forma de conhecimento. Conhecimento histórico ou percepção histórica estão sempre incorporados em textos históricos. E eu falo aqui explicitamente de textos históricos, e não de afirmações individuais contidas no texto. Como sabemos, o problema central da escrita da história, e o problema que todos nós gostaríamos de resolver a fim de alcançar o conhecimento histórico, é um problema de seleção. Ou seja, o problema de quais afirmações verdadeiras vamos ou não colocar na conta do passado. Daí o nosso principal problema não é o de fazer afirmações verdadeiras sobre o passado. Para isso há uma coisa muito fácil de fazer, embora, é certo, nem sempre sem problemas próprios. O problema é, de preferência, o de selecionar as verdadeiras sentenças para nossos textos históricos. Em suma, na prática da escrita da história, e em particular no debate histórico, sentenças verdadeiras devem ser vistas muito mais como átomos do que como moléculas: que não se olhe para elas, por assim dizer. Agora, sempre se encontram indicadores de tempo “em” sentenças de textos históricos (por exemplo: “a Revolução Francesa eclodiu em 1789”), portanto no nível ‘atômico’. A implicação é que o tempo só pode ser de menor importância para o estudo da história. E isso significa o fim da opção transcendentalista.

 

Tempo como tempo do relógio

 

     O tempo é um dos maiores enigmas da filosofia. Desde a declaração bem conhecida de Santo Agostinho em suas Confissões de que ele só sabe o que é o tempo enquanto as pessoas não elaboram questões sobre o tema, os filósofos têm tido pouco sucesso significativo em sua tentativa de dar sentido a esse conceito. Sob a forma de tempo do relógio, porém, temos uma noção de tempo que não apresenta problemas a partir de uma perspectiva filosófica. O tempo do relógio é simplesmente o tipo de tempo que lida com um relógio. Sessenta minutos cabem em uma hora, vinte e quatro horas em um dia – e assim por diante até chegarmos em semanas, meses e anos e décadas e séculos. O tempo do relógio é definido em termos de percepção objetiva de fenômenos físicos ou astronômicos, e como tal é relativamente não problemático.

     Qual é o significado do tempo do relógio para o estudo da história? Encontramos a resposta a esta questão na crônica e nos anais. Hayden White menciona os Anais de Sankt Gallen como um exemplo de uma crônica (portanto, os Anais de Sankt Gallen não são anais no sentido próprio do termo). White cita a seguinte passagem do mesmo: “722, boa colheita; 723, -; 724, -; 725, os Sarracenos vieram pela primeira vez; 726, -; 727, -; 728, -; 729, -; 730, -; 731, o abençoado Beda morreu; 732, Carl lutou contra os Sarracenos em Poitiers no sábado”. Como mostra o exemplo, cronologia, ou o tempo do relógio, estrutura a narrativa histórica aqui – pelo menos se estivermos dispostos a falar de narrativa histórica como no caso da crônica. O mesmo é verdadeiro para os anais também. A contagem dos anos é sequenciada tanto nos anais como nas crônicas, mas estes não se restringem ao mero relato cronológico. Antes de tudo, diferentemente da crônica, os anais geralmente se concentram em uma certa entidade histórica, como um monastério, uma cidade, um soberano ou um país. Os anais, assim, possuem uma coesão que está ausente nas crônicas. Em segundo lugar, os anais diferem, e vão além das crônicas pelo fornecimento provisório de relações de causalidade entre os diferentes eventos históricos.

     Hayden White corretamente aponta para o fato de que não devemos olhar com desprezo para a crônica e os anais a partir de uma perspectiva da escrita da história contemporânea. Nas sociedades com baixo grau de coesão social, como as da Europa de mil anos atrás, e onde as pessoas não eram menos dependentes dos caprichos da natureza como da ação do próprio homem, as crônicas e os anais eram provavelmente o meio mais sensato de relato do passado. Além disso, as crônicas e os anais não são inferiores à historiografia contemporânea no que diz respeito à objetividade, verdade e realismo. A sua verdade pode ser comparada favoravelmente com a sempre complicada e frágil construção teórica que achamos na moderna escrita da história desde Ranke.

     No entanto, nenhum historiador faria uma defesa das crônicas ou dos anais hoje em dia. Nem fazem sucesso na pesagem e interpretação dos dados do passado na forma como isso é feito na escrita da história moderna. Assim, mesmo a obra-prima dos anais criará uma impressão curiosa, tola, no leitor contemporâneo; o argumento move-se continuamente como uma ondulação na superfície do tempo e funde-se com a narrativa em cada fase. O argumento não é uma teia, mas uma linha, e nunca consegue evocar uma sugestão de perspectiva, profundidade ou coerência. Para citar White, crônicas e anais falham

 

como história propriamente dita, pelo menos de acordo com comentadores tardios, em virtude de duas considerações. Primeira, a ordem do discurso segue a ordem da cronologia; apresenta os eventos na ordem da sua ocorrência e não pode, portanto, oferecer um tipo de significado dirigido narrativamente e que possa ser oferecido como relato. Segunda, provavelmente devido à ordem analítica do discurso, o relato não pode ser dado como concluído ou

 

     Em suma: crônicas e anais não conseguem dar sentido ao passado. E esta – a interpretação significativa da história – é precisamente a aposta e o propósito da moderna escrita da história. Mas a ordem cronológica do tempo do relógio não contribui para isso. Assim, devemos descartar tempo do relógio como uma categoria constitutiva da escrita histórica.

 

Tempo como historicidade (tempo vivido)

 

     Nos meus argumentos anteriores eu ‘perdi’ duas vezes, por assim dizer. Eu mirei muito alto em direção à noção transcendentalista de tempo, porque pensei que se poderia usar o tempo também como fundamento epistemológico de disciplinas diferentes da escrita da história. Eu mirei muito baixo em direção ao tempo do relógio: o tempo cronológico é valoroso apenas para crônicas e anais, mas sem nenhum significado real para a escrita moderna da história. No entanto, a teoria da história contemporânea nos dá a oportunidade de observar uma terceira opção, e espero que possamos finalmente atingir o ponto agora.

     Estou pensando aqui em Tempo e de Paul Ricoeur e, principalmente, em Tempo, Narrativa e de David Carr, de 1986 e os vários ensaios que esse último escreveu desde então e em que ele ainda elaborou a tese principal desse livro. Como ficará claro a partir do título dos dois livros, o tempo é o tema central de ambos. Além disso, os dois livros podem ser colocados na tradição fenomenológica. A fenomenologia visa atingir ao máximo a superação dos preconceitos, é uma descrição quase científica de como o mundo nos é apresentado, sendo seu ponto de partida a experiência de vida em si. Mas, como argumentou Husserl, não pode ser a experiência subjetiva (isso resulta inevitavelmente em variantes do idealismo) nem o objeto experimentado (o que nos dará variantes do empirismo). Husserl assim esperava ser capaz de evitar e até mesmo superar o dilema entre idealismo e realismo. Em seguida, fenomenólogos desde Husserl têm enfatizado a temporalidade, ou historicidade de toda experiência fenomenológica. Esse é o ponto de partida tanto de Ricoeur como Carr. A ideia básica deles é que a historicidade, essa temporalidade da experiência, não se aplica apenas ao modo pelo qual o indivíduo experimenta o mundo. Para isso, argumentam que existe continuidade entre o papel do tempo no nível elementar do indivíduo, seu papel no nível do grupo ou da coletividade (por exemplo, do estado ou nação) e, finalmente, o papel do tempo no nível da escrita da história.

     Agora, desde o argumento de Ricoeur sobre o tempo, é difícil separá-lo de uma série de outras questões teóricas que não são relevantes no contexto atual, enquanto Carr concentra-se exclusivamente no tempo, discutirei, por razões de economia e clareza, o trabalho de Carr, e não a trilogia profunda e impressionante de Ricoeur no restante da minha discussão hoje.

     O argumento de Carr se desenrola em duas etapas. Antes de tudo, ele quer demonstrar que o tempo é uma categoria essencial para separar experiência individual e ação (Carr poderia referir-se aqui aos seus precursores da fenomenologia); em segundo lugar, ele quer demonstrar essa continuidade entre o papel do tempo e da historicidade para o indivíduo, para o grupo e para a escrita da história que acabei de mencionar. O primeiro passo é o mais fácil. Carr aqui segue a noção de Husserl de que a experiência sempre pressupõe uma reminiscência do passado (retenção) e uma antecipação do futuro (extensão). Por meio de uma feliz metáfora, Carr compara a experiência com o ato de ouvir uma melodia; nós podemos reconhecer uma melodia somente se não a ouvirmos separadas das notas, mas também seremos capazes de lembrar o que ouvimos e teremos certas expectativas do que ainda está por vir. Em outras palavras – e esta reformulação é de grande importância para Carr – nossa experiência de vida já possui em si uma estrutura Temporalidade e narratividade são conceitos intimamente conectados e são os dois pilares sobre os quais toda a argumentação de Carr está fundada. Como Carr repete algumas vezes, não só não encontramos narratividade e temporalidade no nível das narrativas históricas acerca da realidade (passada), como elas também fazem parte de elementos importantes da própria realidade, ou seja, da própria vida. Ou, como diz Carr, narratividade e temporalidade não são “um vestido que cobre qualquer outra coisa, mas a estrutura inerente à experiência humana e à ação”.

     O segundo passo é mais difícil, e diz respeito à questão de saber se narratividade e temporalidade são de importância tanto para as coletividades e suas histórias quanto são para o indivíduo – em outras palavras, existe também algo como uma narrativa social do tempo do mesmo modo que a experiência de vida individual, sem dúvida, está estruturada por tal tipo de tempo? Em uma análise equilibrada e justa, Carr conclui que a tentativa de Husserl, Heidegger e Schütz (um dos seguidores de Husserl) de argumentar a partir do indivíduo em direção ao grupo tem sido mal sucedida. A fim de remediar seu fracasso, Carr agora se volta para Hegel e em particular para o argumento de Hegel acerca da relação senhor-escravo, tornada tão famosa por Kojève, seu discípulo marxista francês, e por Fukuyama. Hegel disse acerca dessa relação que o senhor só pode ser um senhor na medida em que for reconhecido como tal pelo escravo: de modo mais generalizado, nós nos reconhecemos e nos tornamos o que somos no e pelo reconhecimento do outro. Para Carr, o reconhecimento, como definido por Hegel, é o modelo para a integração do indivíduo em uma coletividade com uma certa coesão social. Portanto, a coletividade é essencialmente mais que a soma das partes separadas do indivíduo atomístico hobbesiano. Por outro lado, o indivíduo também vai se definir e interpretar a si mesmo nos termos de um grupo e pelos padrões de reconhecimento existentes dentro do grupo. Isso significa – e é nisso que Carr está interessado – que, graças aos mecanismos de reconhecimento, há um continuum entre o indivíduo e a coletividade. E de acordo com Carr, por sua vez, significa que narratividade e temporalidade são categorias da coletividade, tanto como do indivíduo – narratividade e temporalidade coletivas previamente existentes ganham forma nas narrativas históricas que a coletividade conta sobre si.

     Em suma, de acordo com Carr, o tempo é a categoria com a qual é constituída tanto a própria realidade passada quanto os relatos históricos sobre ele. O tempo constitui tanto a ação humana individual quanto a coletiva. Ainda, o tempo determina a estrutura de toda a narrativa histórica, isso se a narrativa existe para fazer justiça à temporalidade da ação humana. Assim, tanto a perspectiva ontológica quanto a epistemológica do tempo são categorias fundacionais da história e da escrita da história. Assim, tão logo pensemos em tempo vivido, e não na sua forma transcendentalista ou em tempo do relógio, não podemos duvidar que o tempo é a categoria fundacional de toda escrita da história.

 

As diferenças de opinião entre Carr e Mink

 

     Devemos elogiar Carr pela clara e vigorosa maneira com que definiu o papel do tempo no estudo da história. No entanto, nos escritos de Louis O. Mink e Hayden White podemos encontrar fortes argumentos contra a sua tese principal. Diferentemente de Carr, Mink e White observam uma descontinuidade entre as vidas de indivíduos e coletividades, por um lado, e as narrativas históricas que podem ser ditas sobre elas, por outro lado. Enquanto Carr conecta vida e narratividade, Mink e White associam o tempo com a vida em si mesma, mas não com a narratividade, nem com as narrativas que os historiadores podem dizer sobre a vida. Assim, Mink e White rejeitariam a tese de Carr de que o tempo seja fundamental para o estudo da história.

     Por isso, vamos agora comparar os pontos de vista de Carr com os de Mink e White. Um primeiro problema com a tese de Carr é o que segue. Como vimos, a experiência do indivíduo e da ação é o ponto de partida de Carr. Uma coletividade social ou histórica (um estado, uma nação etc.) só existe na medida em que os indivíduos estão dispostos a reconhecer a coletividade – só então temporalidade e narratividade podem ser transpostas do indivíduo para a coletividade. Assim, Carr escreve: “apenas os grupos que se distinguiram pela participação consciente e ativa de seus membros podem ser qualificados como subjetividade da perspectiva do ‘nós’ no sentido dessa discussão [...]. Estamos dizendo que a subjetividade da perspectiva do ‘nós’ existe na medida em que os indivíduos levam-na a existir e agem em conformidade com ela”. Lembrando como Carr usou as ideias de Hegel sobre a relação senhor escravo, tal ponto de vista do grupo era esperado. Em seguida, o historiador também deve estar apto a se identificar com o indivíduo ou a coletividade. Apenas por intermédio dessa identificação pode ser garantida a existência de uma subjetividade da perspectiva do “nós”.

     No entanto, o resultado da adoção de Carr de uma perspectiva do “nós” (como extensão de uma perspectiva do “eu”) é que a escrita da história sempre e inexoravelmente permanece vinculada à perspectiva de um agente histórico individual, bem como para o grupo social ou histórico deste último. Pois, assim que o historiador transcendesse essa perspectiva e desenvolvesse uma perspectiva própria, ele irrevogavelmente separaria o continuum entre o indivíduo, a coletividade e o historiador acerca do qual todo argumento de Carr está baseado. No entanto – e esse é o problema que a pessoa terá com essa visão – o historiador, ordinariamente, e talvez até mesmo essencialmente, tornar-se-á um estranho em sua relação com os indivíduos e as coletividades cujas histórias investiga. O historiador normalmente escreve a partir de uma perspectiva “deles” ao invés de uma perspectiva do “nós”. Ele está interessado no passado, precisamente na medida em que este é diferente do presente e na medida em que ele, o historiador, afasta-se da experiência de vida do agente histórico. O historiador tipicamente deseja dizer coisas sobre o passado que os agentes históricos individuais ou coletivos não sabem e talvez até não poderiam saber sobre si mesmos. Essa já era a intuição por trás da noção bem conhecida de Hegel designada como ‘a astúcia da razão’; somente em uma visão retrospectiva, vamos perceber qual foi o real significado de certos desenvolvimentos históricos. É revelador que Carr, mesmo em função de seu hegelianismo, não deixe espaço para essa noção hegeliana no âmbito de sua estrutura de raciocínio. Reconhecidamente, Carr está pronto a admitir que muitas vezes há uma distância enorme entre o historiador e o agente histórico; afinal, ele não pode negar que também os historiadores não hesitam em falar sobre o Egito antigo ou início da Idade Média. Mas então Carr tenta neutralizar o perigo dessa concessão com a afirmação de que nós – incluindo o historiador, consequentemente – “estamos situados para nós dentro do amplo panorama da história que nos leva aos mais remotos tempos e regiões.” Aqui a perspectiva do “nós” expandiu-se tanto que a perspectiva do “eles” se torna completamente inconcebível.

     E isso me leva a uma outra consideração. Tudo isso se torna mais problemático a partir do reconhecimento dessa diferença, ou até mesmo em função do conflito aberto entre o ponto de vista do historiador e o do agente histórico, como tem sido, de fato, a origem de todo narrativismo na moderna teoria da história. Estruturas narrativas, lógica narrativa e narrativa histórica em si, só se tornaram objeto legítimo de reflexão teórica depois que uma certa autonomia foi atribuída à narrativa histórica em sua relação com o passado narrado (ou o passado como tinha sido ‘vivido’). É ainda mais surpreendente, então, que Carr negue a autonomia originária de uma posição estabelecida explicitamente. E isso levanta a questão de como essa discordância entre narrativistas se tornou possível.

     Agora, como Carr diz por si só na introdução de seu livro, a chave para essa discordância é o famoso ditado de Mink, de que “narrativas não são vividas, mas contadas”. De acordo com Mink, uma narrativa não pode ser ‘vivida’, mas apenas contada. Carr, no entanto, quer incorporar narratividade à ‘vida’, para, assim, segundo ele, a experiência e a ação passarem sempre a ter uma estrutura narrativa. Isso pode explicar a afirmação de Carr: “Louis Mink passou, assim, a operar com uma distinção totalmente falsa quando disse que as narrativas não são vividas, mas contadas. Elas são contadas enquanto vividas e vividas à medida que são contadas”. Assim, a discordância entre Carr e Mink diz respeito à ligação entre o tempo ou temporalidade e narratividade. Carr repetidamente menciona os dois a um só fôlego: ‘vida’ unida à narratividade.

     No raciocínio de Mink, no entanto, o fato de que as narrativas não são vividas, mas contadas, marca a distância entre a temporalidade (vida) e a narrativa histórica. Mink apresenta vários argumentos para mostrar a distância entre o tempo e a narratividade. O mais importante é que a tarefa do historiador é justamente introduzir na e pela narrativa a junção que está temporalmente separada na ‘vida’ ou no próprio passado em A narrativa histórica conecta por meio de uma sinopse, o que é experimentado em uma sucessão temporal separadamente, na ‘vida’ ou no próprio passado. Assim escreveu Mink: “Na compreensão da configuração de uma narrativa [...] o fim está conectado com uma promessa feita no início, assim como o início está ligado à promessa do fim, e a necessidade de referência retroativa cancela, por assim dizer, a contingência das referências que estão adiante. Compreender a sucessão temporal significa pensar nisso em ambos os sentidos de uma só vez, e então o tempo já não é um rio que nos conduz por seu trajeto a partir de uma visão aérea, deslocando-se rio acima e rio abaixo, em uma única pesquisa”. E não somos todos nós, como historiadores, familiarizados com o fenômeno que expressa que o tempo e a cronologia desempenham um papel menos significativo na historiografia à medida que começamos a entender melhor acerca de um evento histórico ou sobre um período histórico. As datas que temos são de um significado meramente preliminar para a visão histórica; tudo o que é de real importância para a escrita histórica só começa após deixarmos o tempo e a cronologia para trás. As maiores obras-primas da escrita histórica do século XX raramente mencionam datas. Por isso, temos todas as razões para concordar com a tese de Mink “de que o tempo não é a essência da narrativa”. Mais ainda, é a essência das narrativas históricas para apagar ou para transcender o tempo, tanto quanto possível; a narrativa histórica deve colocar o tempo em segundo plano ou, melhor ainda, eliminá-lo.

     O ponto de vista de Mink de nenhuma maneira nos força a rejeitar a importância do tempo e narratividade para o indivíduo, o que Carr tem enfatizado com justiça de uma maneira insistente. Então, por que não poderíamos, em certas circunstâncias, nós mesmos, sermos historiadores? Nada obriga Mink a negar que os indivíduos possam muitas vezes contar de forma autobiográfica, na forma de uma narrativa histórica sobre si mesmo, e que nós também continuamente orientamos a nossa ação com base em tais narrativas, sejam detalhadas ou não. No entanto, agir e contar uma narrativa acerca de si mesmo são logicamente duas coisas diferentes de acordo com Mink, não importa quão sabiamente alguém possa basear o significado de sua ação e vida, ou a narrativa de sua própria vida. Quem conta uma história não age – e vice-versa. O problema com a tese de continuidade de Carr é que ele perdeu de vista a diferença entre esses dois níveis, e ele perdeu isso de vista porque nunca percebeu que o agente e o historiador podem muito bem estar unidos em uma mesma pessoa. Admito que a crítica de Carr a Mink não é totalmente irracional. Tanto Mink quanto White tendem a sugerir que o contraste distintivo entre o nível dos fatos históricos versus o nível de algo é a mesma coisa que fazer a distinção entre o nível de ‘vida’ versus o nível de como a vida é historicamente interpretada. Por confundir essas duas distinções, eles sugerem a imagem quase positivista de uma realidade carente de sentido tranquilamente à espera de uma interpretação narrativista totalmente à parte dessa realidade. Carr está certo em corrigir esse esquematismo quase positivista, apontando que em nossa ação, às vezes, podemos dar forma à realidade histórica (e não apenas para suas interpretações) com base na inspiração narrativa. No entanto, Carr cai no extremo oposto, quando iguala completamente ‘vida’ com a narratividade, e, a relação entre os dois assemelha-se ao ato de leitura e interpretação do que está sendo lido; um completando ao outro, mesmo que tenha que pressupor ao outro, mas permanecem operações distintas, em última análise.

 

Conclusão

 

     Nem o tempo transcendental, nem o tempo do relógio, nem mesmo o tempo vivido acabou por ser de importância crucial para o estudo da história, e este, sem dúvida, explica o pequeno número de páginas dedicadas ao tempo pelos teóricos da história. Eu não gostaria de argumentar que o tempo não tem papel a desempenhar em tudo na escrita da história. Mas esse papel é negativo ao invés de positivo; é função e tarefa da historiografia o de apagar o papel do tempo, na medida do possível, e fazer-nos esquecê-lo. Para isso, Mink tinha em mente a sua ideia de que a narrativa histórica reúne de forma sinóptica o que havia sido separado, e experimentou seriatim o passado em si é uma exigência para a destruição do tempo vivido.

     Em outras palavras, o tempo é o alimento por meio do qual o estudo da história sobrevive, e que depois é transformado em algo essencialmente diferente, ou seja, a coerência narrativa. Se tudo corre bem, o tempo é transformado em coerência narrativa. E, ainda, a indigesta cronologia permanece na narrativa histórica para demonstrar onde o historiador foi apenas parcialmente bem-sucedido em seu esforço.

     Acrescento uma última observação a tudo isso: o contraste entre as crônicas e os anais, por um lado, e a escrita histórica moderna, por outro, reside no fato de que o tempo molda a escrita histórica no primeiro caso, enquanto no outro a moderna escrita da história molda o tempo. Isso significa duas coisas: primeiro de tudo, a transição das crônicas e dos anais à historiografia moderna é essencialmente um fato cultural. Há culturas que nunca fizeram essa transição, e seria precipitado concluir que essas outras culturas teriam menos respeito pelo passado do que podemos atribuir à moderna escrita da história.

     De qualquer forma, a escrita moderna da história inegavelmente levou o ferrão da temporalidade do passado. E desde então o destino do tempo tornou-se indissoluvelmente ligado à sorte da escrita da história. O tempo agora se tornou um agente na narrativa histórica assim como tantos outros agentes, e sem ser privilegiado de alguma forma em relação a esses outros. Como escreveu Braudel em seu “Chegamos assim a uma decomposição da história em planos segmentados. Ou, caso prefira, a uma distinção; a partir do tempo da história, um tempo geográfico, um tempo social, um tempo individual. Ou ainda, a decomposição do homem num cortejo de Observando essas mudanças e transformações que o tempo pode, aparentemente, sofrer no interior de um único livro, temos aqui uma confirmação quase empírica da tese de que o tempo é como o barro nas mãos do historiador. A escrita histórica não é formada pelo tempo, mas molda o próprio tempo. O tempo histórico não é físico ou filosófico, mas um conceito cultural, e sua natureza depende de como a escrita da história funciona dentro do todo de nossa(s) cultura(s).


²⁵³ Expressão em alemão que significa “Formas de intuição” [Nota do tradutor].

 

²⁵⁴ A palavra refere-se ao título de uma obra do filósofo citado [Nota do tradutor].

 

²⁵⁵ No original a citação de Kant está em Alemão: nun sind Raum und Zeit dieje­nigen Anscha­uungen, welche die reine Mathema­tik allen ihren Erkenntni­ssen, und Urteilen, die zugleich als apodi­ktisch und notwendig auftre­ten, zum Grunde legt; [...] Doch betrifft dieses Vermögen, a priori anzuschauen, nicht die Mater­ie der Erscheinu­ng, d.i. das, was in ihr Empfind­ung ist, denn diese macht das Empirische aus, sondern nur die Form derse­lben, Raum und Zeit [Nota do tradutor].

 

²⁵⁶ No original, a citação de Kant está em Alemão: eine Zeit, welche mathema­tisch in Aus­drüc­ke wie t, t2, √-t gebracht werden kann, die die Annahme einer Zeit von der Grösse Null oder negat­iver Zeiten wenigstens nicht ausschli­eßen. Ohne Zweifel kommt hier der Bereich des Lebens, des Schic­ksals, der lebendigen, historischen Zeit gar nicht in Frage [Nota do tradutor].

 

²⁵⁷ WHITE, Hayden. The content of the narrative discourse and historical representation. Baltimore: John Hopkins UP, 1987, p. 17.

 

²⁵⁸ Expressão em Latim que significa “Em série” [Nota do tradutor].

 

²⁵⁹ A palavra se refere ao título de uma obra do historiador citado [Nota do tradutor].

 

²⁶⁰ No original, a citação de Braudel está em Francês: Ainsi sommes-nous arrivés à une décompo­sition de l’his­toire en plans étagés. Ou, si l’on veut, à la distinc­tion, dans le temps de l’histoire, d’un temps géograp­hiq­ue, d’un temps social, d’un temps individu­el. Ou si l’on préfère encore, à la décompos­ition de l’homme en un cortège de personna­ges [Nota do tradutor].